Carreiras são como árvores: e não crescem da noite pro dia
2 de novembro de 2017
Coaching&Carreiras

Com alguma frequência recebo mensagens de pessoas frustradas e insatisfeitas com seu trabalho atual. Muitas delas, são jovens em início de carreira. Tantas outras, são gente com algum tempo de estrada, mas rigindo para o rumo errado. Há ainda aqueles que estão perdidos sobre o que estão fazendo e buscam uma resposta que o salve do caminho errado.
Toda essa frustração ficou ainda mais clara para mim quando escrevi meu segundo artigo mais lido, o “Para todos aqueles que já choraram escondido no banheiro da empresa”, com mais de 600 mil visualizações e uma quantidade de comentários e compartilhamentos que me deixou assustada. Por que será que tanta gente está infeliz em seu trabalho?Quando dou aula sobre gestão de carreira, percebo 80% da turma infeliz com seus trabalhos atuais, mesmo que aos olhos de outras pessoas eles pareçam incríveis. Noto um entusiasmo grande quando começo a mostrar ferramentas e caminhos para mudar esse cenário.

Em minha opinião, um dos problemas é que as pessoas insatisfeitas nunca perceberam que carreiras precisam ser planejadas e governadas. Na maioria das vezes apenas conseguiram um emprego e lá foram na missão de acordar todos os dias e ir trabalhar, nada além. Eu também já fiz isso e assim guiei minha vida até o dia em que fui consumida de tal forma, que repentinamente perdi a capacidade de ler temporariamente e fui parar no neurologista de tanto estresse. Eu precisava fazer algo para ser feliz de novo.

Focar-se apenas ao seu cargo e à empresa, esquecer de cuidar de si mesmo, que existe vida pessoal e um entorno é correr um risco enorme, pois uma demissão pode acabar com tudo isso e transformar o sujeito em alguém rastejando, fraco, sem respostas, se sentindo a última bolacha do pacote. O cargo que você ocupa jamais deveria ser maior do que sua imagem como indivíduo, como marca pessoal. Você é o que construiu e o que pode oferecer para a sociedade e pouco importa qual o cargo que está escrito em seu cartão de visitas. Até porque cargos são emprestados apenas.

Agora eu tenho trinta e dois anos, mas me lembro de como era minha vida aos dezoito. Na época, eu queria entrar na graduação e havia estudado o segundo e o terceiro ano do ensino médio em escola particular, todo o resto do tempo havia sido em escola pública. Mas aquele dinheiro que meus pais gastaram comigo não adiantou muito, porque eu simplesmente era uma boba que não tinha informação suficiente, tampouco um plano para passar em um vestibular de uma faculdade pública. O que era incentivado naquela época e escola, é que você passasse nas provas e aí começa um erro enorme de muitos estudantes: eles estudam para passar nas provas. Eles odeiam ir às aulas. Eles não entendem por que precisam estudar aquilo. E pior, acham que enquanto são estudantes não precisam se preocupar com sua carreira, afinal, ainda nem trabalham. E então, começa uma série de outros novos erros, porque não aproveitam este momento para desde já construir uma imagem profissional, se esquecem de que tudo que fazem já pode ser malvisto ou usado contra eles, que um colega amanhã poderá ser seu concorrente ou chefe.

Eu não comecei de cima: um pouco do que passei no início de carreira

Meu primeiro emprego, antes mesmo de entrar na faculdade, era em uma loja de CD´s muito longe de casa. Eu ganhava o que equivaleria a uns R$200,00 hoje, quase pagava para trabalhar, era horrível. Depois dei aulas de espanhol por conta própria e com a cabeça de uma garota de menos de vinte anos e que há mais de dez anos atrás não sabia nada sobre a vida, acho que nem me portava direito. Estudei em faculdade privada pagando aos trancos e barrancos e cursando o mínimo de créditos, era o que eu podia pagar. Diversas vezes tranquei, porque não tinha dinheiro para o próximo semestre.

Depois fui trabalhar em uma gráfica imunda e quente, lidava com cocôs de barata e rato, fazia coisas além de minha função, vivia com medo do chefe carrasco e bravo e me perguntava o tempo todo se seria assim para sempre, se era para viver aquilo que eu havia estudado. Em meio a tudo isso eu não deixava de ir a palestras e de estudar, muitas vezes permutei alguma coisa que eu era boa para poder fazer aquele curso de graça. Aos poucos as oportunidades começaram a melhorar, mas eu ainda passaria por muita coisa até entender meu real objetivo e finalmente começar a entender que eu podia ter uma carreira.

Somente alguns anos depois é que, já formada, eu tive a primeira oportunidade profissional que julguei ser boa. Ainda não era o cargo que eu queria, mas eu sabia que não dava pra começar por cima. Eu estava começando a aprender que carreiras não são como colocar lenha na fogueira, e que não se tratava de colocar o máximo de lenha no menor tempo possível, que eu não conseguiria ir longe em tão pouco tempo.

Carreiras são como árvores e precisam ser cuidadas por toda uma vida até que um dia possam dar frutos e simplesmente não existe como já começar lá em cima, porque é o percurso que lhe dará maturidade e força para depois assumir coisas melhores.

Quando vejo gente de 22 anos reclamando pra mim que está insatisfeito e que queria logo crescer de posição eu logo lembro de tudo que vivi nessa idade. Eu estava apenas começando. Essas pessoas estão apenas começando e tem muito a aprender.

É importante trabalhar expectativas e entender que esse caminho será necessário e que talvez por alguns anos você precise trabalhar com coisas que nem ama tanto assim, ganhando um salário que não é o que você queria. E que por mais que você goste do faz, sempre precisará lidar com coisas que não gosta no meio do caminho.

O problema é que hoje todo mundo quer rapidamente virar um grande nome, acumular diversos e importantes cargos e ganhar muito, mas não entendem que esses resultados só podem ser colhidos depois de algum tempo de paciência e persistência.

A vida e a escola não nos preparam para isso. Saímos achando que um diploma salvará tudo e que em um ou dois anos já seremos profissionais de sucesso.

Do outro lado, estão as pessoas que já tem alguns anos de estrada, cujos erros não são necessariamente a falta de experiência e imaturidade, típicas do início de carreira, mas a falta de entendimento que sua carreira precisa ser governada. Muitos deles sofrem da síndrome de Alice, qualquer coelho que passam perto delas as apressando é suficiente para que elas corram atrás sem saber exatamente o motivo de estarem fazendo isso. E então, se deparam com vários caminhos, mas não sabem para qual deles ir, “porque para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve“.

O que a gente costuma ouvir de quem está vivendo um momento difícil na carreira ou no negócio? “Eu tô tentando” ou “eu tô fazendo o meu melhor”. Mas a grande verdade é que não estão, de fato, fazendo isso. Sequer sabem o que precisam fazer, para onde ir, no que precisam melhor. Não existe um plano de ação, um norte. É como aquele sujeito que diz o tempo todo que está tentando emagrecer, mas não define a quantidade de peso que quer perder, nem um prazo. E é esse mesmo problema que faz com que empresas se tornem dia a dia antiquadas quando pregam em suas missão, visão e valores coisas que nunca vão cumprir, porque simplesmente não estão fazendo nada para isso.

Como planejar e avançar em sua carreira?

Um caminho para começar a planejar sua carreira é fazer uma análise SWOT de sua vida profissional. Geralmente, usamos esta análise para empresas, mas é possível perfeitamente aplicá-la a este contexto.

Basta guiar-se por quadrantes como este. Em forças, preencha características positivas suas, mas evite ser muito otimista no preenchimento, reflita se o que você está realçando é um ponto forte real ou apenas a sua opinião, sonho ou desejo. Aqui entram suas experiências diferenciadas, conhecimento e qualidades. Em fraquezas, liste os pontos que você precisa melhorar, mas evite se depreciar excessivamente, relacione apenas o que pode impedir você de realizar alguma tarefa. Em oportunidades, analise seu entorno e liste em quê você pode focar, tenha estratégia clara, com objetivos, indicadores e metas bem definidos que permitirão priorizar as oportunidades. Por fim, em ameaças, coloque as coisas que você deseja eliminar, evitar ou mudar no mundo externo, que afetam sua carreira.

Só preencher os quadrantes não basta. Ao cruzá-los, como por exemplo, analisando forças x oportunidades ou forças x ameaças, você entenderá o que precisa fazer para chegar àquele objetivo e é exatamente a partir disso que você criará um plano de ação para, pouco a pouco, mudar cenários.

O que é sucesso pra você?

Em meio a esse processo é preciso se perguntar o que é sucesso pra você, pois para cada pessoa existe um significado diferente. Essa compreensão somada a seus valores pessoais, que incluem coisas que você está disposto e não disposto a fazer e à uma percepção sobre seus reais talentos, o ajudará a caminhar em sua carreira, tomando as rédeas . Isso também quer dizer que você precisará ser paciente, ativo e que nem sempre terá perfil para atuar no que deseja, é preciso ser realista. Um exemplo? Alguém que enfiou na cabeça que quer ser empresário/empreendedor, mas não tem o mínimo perfil para isso. O relatório Causa Morti do Sebrae (2014) lista o sucesso e o fracasso das empresas em seus primeiros 5 anos de vida. A conclusão é que as empresas fecham por problemas com 1) planejamento prévio, 2) gestão empresarial e 3) comportamento empreendedor. Isso quer dizer que fecharam não porque não existiam clientes, mas por outras questões, muito relacionadas ao perfil do empresário. Ou seja, nem todo mundo pode ser empreendedor.

Quando comecei a fazer gestão de carreira

Desde que passei a entender que minha carreira seria um processo, e que todos os dias eu precisaria investir nela, é que as coisas começaram a mudar. Em 2015 eu já tinha terminado meu mestrado e sonhava como doutorado, mas sabia que seria muito difícil passar. Então, antes mesmo do processo seletivo abrir eu comecei a me preparar, um ano antes. Intensifiquei o estudo de inglês para ter mais chances de passar na prova de proficiência, li muitos livros, melhorei meu currículo, dei mais aulas em universidades, comecei a pensar no que poderia estudar para que eu pudesse propor um bom projeto de pesquisa. Então, um ano depois o processo abriu e eu passei, conquistei uma das pouquíssimas vagas e agora sou uma doutoranda. Isso é gestão de carreira. Eu contei tudo isso no artigo “Aprenda a descansar, não a desistir”.

Eu também fiz gestão de carreira quando planejei ser empreendedora. Eu era funcionária de uma empresa e comecei a ter demandas por fora enquanto trabalhava lá. Conciliei as duas até que um dia chegou a hora de seguir sozinha e eu pedi demissão. Mas pedi de forma planejada, porque já tinha não apenas um plano B, mas também um C e um D. Isso é gestão de carreira.

Aos trinta e dois anos eu posso dizer que faço a gestão da minha carreira, que tenho planos, que sei pra onde quer ir e que tomo decisões, todos os dias, considerando o que quero alcançar. Isso inclui priorizar o tempo todo e dizer alguns não que me tiram do meu objetivo. Aliás, eu escrevi sobre isso neste artigo.

Eu entendi que só ficar parada, deixando a vida me levar, não me trará o que considero sucesso em minha vida profissional, porque carreiras são como árvores e não vão crescer da noite pro dia.

*Arquivo publicado originalmente no portal Linkedin – Flavia Gamonar

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