Porque algumas normas são mais suscetíveis de serem infringidas
28 de outubro de 2019
Coaching&Carreiras

Normas jurídicas estão em vigor para proteger acionistas, funcionários e consumidores de riscos. Muitos dos mais famosos acidentes e insucessos empresariais resultaram da não conformidade com estas normas. Considere os casos de vazamento de óleo da BP Deepwater Horizon , o escândalo das contas do Well Fargo, e também os surtos de doenças causadas por alimentos no Chipotle. Cada um deles tem origem na infração de alguma norma.

Quando se trata de pesquisas sobre infração de normas, a grande maioria delas conduzidas por acadêmicos da área de negócios concentrou-se em uma pergunta específica: quais organizações estão mais propensas a infringir normas? Estudos anteriores mostram que empresas com fraco desempenho financeiro, culturas distorcidas e processos organizacionais falhos estão mais propensas a infringir normas. Essas considerações explicam o desrespeito às normas ao analisar as características das empresas infratoras.

Fizemos uma pergunta totalmente diferente: quais normas são as mais suscetíveis de serem desrespeitadas? Para responder esta pergunta, compilamos uma base de dados com mais de 80 mil observações sobre normas em 1.011 inspeções de higiene conduzidas em 289 restaurantes em Santa Monica, Califórnia entre 2007 e 2010. Nossas descobertas em um artigo a ser publicado sugerem que a própria formatação das normas pode criar desafios significativos até mesmo para organizações bem intencionadas.

Normas mais complexas são mais suscetíveis de serem infringidas

Os sistemas de normas de higiene em vigor no Condado de Los Angeles no período de nossa pesquisa continham 86 normas diferentes que variavam em torno de questões como a temperatura apropriada para alimentos, limpeza das mãos dos funcionários e controle de pragas urbanas. Os inspetores de saúde visitavam os restaurantes a cada quatro meses para verificar a conformidade com cada uma destas normas. Os donos dos restaurantes eram altamente incentivados a seguir as normas, pois estas inspeções determinariam sua classificação, a qual seria colocada na porta de entrada. Outra pesquisa descobriu que as melhores notas estavam associadas a uma melhor classificação online e aumento de receita.

Para entender se algumas normas são mais suscetíveis de serem infringidas que outras, focamos na complexidade de cada uma delas. Codificamos cada uma de acordo com dois tipos de complexidade. Primeiro, codificamos a quantidade de componentes de cada norma (ou seja, seu “tamanho” com base no número de seções do Código do Estado da Califórnia que compõem a regra). Por exemplo, a norma sobre métodos de refrigeração só continha uma seção, enquanto a norma sobre alimento-superfícies de contato continha quatro diferentes seções. Segundo, codificamos os números de conexões de cada norma (ou seja, os vínculos existentes para outras normas no sistema). Algumas normas eram independentes, enquanto outras estavam vinculadas a até outras cinco, de forma que a conformidade com uma norma poderia causar a não conformidade com outra. Por exemplo, a norma sobre alimento-superfície de contato estava vinculada a outras cinco outras sobre roedores, baratas, e outras causas potenciais de sujeira em alimentos provocadas por superfícies de contato.

Intuímos que as normas com alto grau de complexidade de qualquer tipo seriam mais difíceis de serem seguidas. Como as organizações dependem de rotinas para seguir as normas, normas complexas demandam rotinas complexas, que são mais difíceis de serem seguidas à risca. Conforme esperado, os dois tipos de complexidade de normas aumentavam a não conformidade. Ambos também se reforçavam de tal maneira que, com tantos componentes e vínculos, aumentavam a probabilidade de a norma ser infringida. Comparadas às normas independentes com apenas um componente, uma com três componentes e que estivesse vinculada a outra no sistema era 78% mais suscetível de ser infringida, considerando que todos os demais fatores permanecessem iguais.

O que acontece após um restaurante ser penalizado por infringir normas? Esperávamos que os gerentestivessem mais dificuldade em aprender com seus erros e em mudar o comportamento errado caso tivessem infringido uma norma complexa em vez de uma regra simples. Surpreendentemente, porém, descobrimos que os dois tipos de complexidade exerciam efeitos opostos em infrações repetidas. Embora uma maior quantidade de vínculos estivesse de fato associada a mais infrações repetidas, uma maior quantidade de componentes estava associada a menos infrações repetidas. Em outras palavras, normas mais abrangentes, embora mais suscetíveis de serem infringidas, tinham também mais probabilidade de serem resolvidas até o retorno do inspetor para a próxima inspeção. Embora não tenha sido possível determinar o mecanismo que estava em jogo devido à limitação das  informações, nosso palpite é que os gerentes tinham pouco interesse e, então, dirigiam seus esforços para normas mais complexas consideradas “em não conformidade” (ou seja, muitos componentes), embora se esforçassem para ir mais a fundo e identificar as causas por detrás das infrações destas normas vinculadas a outras (ou seja, muitas conexões).

Nossas conclusões também mostraram que infringir normas se torna sistemático com o passar do tempo. Um restaurante tinha duas vezes mais chance de infringir uma norma se esta já tivesse sido infringida no passado, considerando que todos os demais fatores permanecessem iguais. Esta natureza “aderente” de não conformidade é verdadeira, independentemente do tipo de complexidade da norma.

Todas as nossas análises têm representatividade estatística para uma série de fatores, incluindo, entre outros, diferenças entre os restaurantes (por ex.: idade, tamanho, tipo de cozinha, faixa de preço, etc.) e normas (por ex.: penalidades, conteúdo, etc.), bem como registros anteriores de não conformidade de tal restaurante. Nossas conclusões não contradizem estudos anteriores, mas, em vez disso, oferecem um retrato mais detalhado ao destacar o importante papel das normas em si.

Algumas Normas sobre Normas

Empresas estão “submersas em um mar de leis” constituídas por normas cada vez mais complexas. Agências regulatórias muitas vezes tornam as normas ainda mais complexas ao acrescentar cláusulas extras para que fiquem mais abrangentes. As mesmas agências frequentemente também aumentam o vínculo entre as normas, especialmente em resposta a crises. As conclusões de nosso estudo sugerem que ambas as tendências podem ter consequências não intencionais.

Obviamente os gestores não são apenas responsáveis pela conformidade às normas legais; eles também costumam desenvolver normas para o local de trabalho. Embora nosso estudo tenha como foco o primeiro fato, estudos mostraram que as normas organizacionais também tendem à proliferação e se tornam cada vez mais complexas ao longo do tempo. Gestores fariam bem se conduzissem auditorias periódicas das normas do local do trabalho com o olhar voltado para torná-las o mais simples e objetivas possível para reduzir a não conformidade.

Para que gestores possam lidar melhor com seus ambientes regulatórios e exigir conformidade às suas próprias regras e normas, sugerimos seguirem as seguintes sugestões:

  • Planeje Deliberadamente – infringir regras e normas ocorre persistentemente; uma vez que ocorra, é difícil corrigir. Incentive os gestores de nível intermediário a estabelecerem rotinas confiáveis com relação à conformidade das normas desde o início para, mais tarde, evitar obstáculos no processo. Melhor ainda, envolva os colaboradores da linha de frente no processo.
  • Verifique a Existência de Vínculos – A não conformidade é particularmente persistente quando se trata de normas vinculadas. No caso de uma norma ser infringida, olhe o que existe por trás dela para achar a causa da infração. Se a causa não for abordada, o problema real pode ser negligenciado e outras infrações podem ocorrer.
  • Administre Atentamente – Nem todas as normas são criadas da mesma forma. Direcione esforços constantes em administrar a conformidade com normas mais complexas, já que são as mais suscetíveis de serem infringidas. Para que isso aconteça, gestores deveriam tratar os programas de conformidade a elas menos como um exercício jurídico e mais como uma ciência comportamental ao experimentar diversos tipos de programas de treinamento, códigos de conduta, e outros sistemas para aprender a maneira mais efetiva de reduzir infrações às normas.

Normas refletem valores sociais e organizacionais importantes e estão em vigor para nos proteger de riscos. Ser responsável sobre o quanto a complexidade destas normas ajuda ou atrapalha a conformidade irá assegurar-nos de que estes valores são respeitados e que os riscos são reduzidos.


David W. Lehman é professor adjunto de Comércio na McIntire School of Commerce, da University of Virginia. Completou seu PhD na Perdue University. Sua pesquisa analisa como organizações aprendem com feedback de desempenho, infração de normas, e fracasso, e foi conduzida em diversos cenários incluindo o esporte profissional, saúde e restaurantes.


Bruce Cooil é professor de Administração Dean Samuel B. and Evelyn R. Richmond na Owen Graduate School of Management, Vanderbilt University. Completou seu PhD na The University of Pennsylvania. Sua pesquisa tem como foco a inferência estatística e modelos de decisão para negócios e saúde e o desenvolvimento de novas medidas de confiabilidade de dados qualitativos.


Rangaraj Ramanujam é Professor de Administração Richard M. and Betty Ruth Miller na Owen Graduate School of Management, Vanderbilt University. Completou seu PhD na Carnegie Mellon University.  Sua pesquisa analisa as causas organizacionais e as consequências de insucessos operacionais em ambientes de trabalho de alto risco, como cuidados com a saúde.

Fonte HBR

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