O trabalho e a felicidade: passado controverso, futuro promissor
8 de outubro de 2014
Coaching&Carreiras
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Escrito por Daiana Stolf e Alex Anton

 - Eu amo o meu trabalho. Transporto as pessoas até onde elas precisam chegar e tenho a oportunidade de conversar com muita gente diferente. Posso contar sobre a minha vida e ouvir histórias e perspectivas de outras nacionalidades que nunca ouviria de outra maneira. E além disso, ganho muito mais como motorista de táxi do que como dono do pequeno restaurante que tinha um tempo atrás.

Kuala Lumpur, 12 de dezembro de 2013.

 

Essa declaração foi feita por um motorista de táxi indiano em Kuala Lumpur em meio a um engarrafamento caótico que afeta a cidade rotineiramente. É curioso que ele tenha revelado espontaneamente a sua paixão pela profissão em um momento extremamente estressante e que ele provavelmente enfrenta todos os dias. Você conhece alguém entusiasticamente apaixonado por seu trabalho a ponto de conseguir pensar positivamente sobre ele mesmo em situações “desagradáveis”? Aparentemente, essa espécie sempre foi difícil de ser encontrada, mas ainda não entrou em extinção (ufa!), como veremos adiante.

Data de 1949 o livro How To Avoid Work (Como Evitar o Trabalho em tradução literal), do coach de carreira William J. Reilly. Com uma dedicatória “respeitosa e com grande afeto a todos os que odeiam o seu emprego”, Reilly escreveu um guia rápido sobre como encontrar propósito no trabalho e correr atrás do que se ama. O autor desafiou as regras sociais da época – o auge das donas de casa americanas – e encorajou o seu público a buscar além de seus empregos confortáveis e convencionais. A metáfora provocante que ele usa para estimular os leitores é bastante verdadeira:

 “A maioria das pessoas tem a ideia ridícula que qualquer coisa que produza renda é considerada trabalho – e tudo o que fazem fora das “horas de trabalho” é diversão. Não há lógica alguma nisso. [...]

Sua vida é muito curta e muito valiosa para ser desperdiçada no trabalho. Se você não se mexer agora, pode acabar como o sapo que é colocado em uma panela de água fresca sobre o fogão ligado. Com a temperatura aumentando gradualmente, o sapo se sente agitado e desconfortável, mas não a ponto de pular para fora da panela. Sem perceber que esta pode ser a sua única chance, ele gradualmente se torna inconsciente.

O que acontece com uma pessoa que faz o que não gosta é muito parecido. Ela se sente irritada no seu cubículo. Suas tarefas logo se tornam uma rotina monótona que, lentamente, anestesia os seus sentidos. Quando eu ando por escritórios, fábricas e lojas, frequentemente me pego olhando para rostos sem expressão realizando movimentos mecânicos. A mente dessas pessoas está oprimida e morrendo vagarosamente.” 

OK, nem sempre foi assim. Nossos antepassados certamente nem tiveram tempo de se preocupar com a utilidade e o propósito de suas carreiras, já que estavam muito ocupados com a sua sobrevivência. Mas com a prosperidade material atingindo cada vez mais pessoas no mundo todo, entramos em uma era onde a procura por significado se tornou mais importante do que o dinheiro. Uma pesquisa de 2007(1) em seis países europeus mostrou que até 60% dos entrevistados escolheriam outra carreira se pudessem começar do zero. E 31% deles demonstraram insatisfação com o trabalho atual, sendo que um em cinco declarou que nunca trabalhou em uma posição que utilizasse suas qualidades de maneira apropriada.

Outro estudo, desta vez entre os anos de 2010 e 2012 nos Estados Unidos(2), indicou que apenas 30% da força de trabalho americana está ativamente engajada nas posições que ocupam. Ou seja, 70% não atinge todo o seu potencial, sendo amplamente subutilizada. O estudo aponta ainda o custo dos colaboradores descomprometidos e desconectados emocionalmente aos seus empregadores: de USD$450 a $550 bilhões por ano em termos de produtividade, rentabilidade, satisfação dos clientes, acidentes de trabalho e gastos relacionados ao vínculo empregatício.

Segundo o Business Talent Group, a definição de sucesso no “passado” (que não está tão longe assim, basta perguntar aos seus pais) era subir a escada corporativa através de promoções. As motivações para chegar no topo incluíam dinheiro, título e controle. Hoje em dia, a estrutura é muito mais complexa e abrange além da compensação, as paixões e o sentimento de realização, a possibilidade de crescimento profissional e de controle e flexibilidade no emprego. Outro advento que mudou a dinâmica do mercado é a tecnologia. Com a possibilidade de trabalhar fora do escritório da empresa e comunicar-se à distância, as pessoas também estão procurando por maneiras alternativas de trabalho. Um exemplo bastante claro disso é o local de onde escrevemos esse texto: um espaço de co-working chamado Hubud, na cidade de Ubud, Bali – Indonésia. Aqui, expatriados de diversos países se reúnem regularmente para discutir ideias de startups, recrutar pessoas ou simplesmente trabalhar online como freelancers ou para seus empregadores que estão baseados em algum país da Europa, na Austrália ou nos Estados Unidos. Phillipe, um cinegrafista dinamarquês, se mudou para a cidade com a família – sua mulher, fotógrafa, e seus dois filhos, que frequentam a Green School. Ele trabalha à distância e viaja quando preciso. Assim como ele, vários outros estrangeiros pensam da mesma maneira: largam tudo para se aventurar em outra cidade – ou país – que ofereça mais qualidade de vida e mais equilíbrio entre o pessoal e o profissional. 

Daiana Stolf é dentista por formação e viajante por paixão. Nada a deixa mais contente do que uma câmera na mão, uma cidade nova para descobrir, uma cidade velha para redescobrir, e uma página em branco esperando ser colorida por pensamentos, ideias e sentimentos. A graduação na Universidade Federal de Santa Catarina foi só o primeiro passo. De garçonete a mestre pela Universidade de Toronto, no Canadá, de cientista da EPFL, na Suíça a aluna de Gestão Estratégica na Universidade de Harvard, nos EUA, de tradutora a voluntária, seu atual desafio é virar doutora na arte de conciliar seus diferentes interesses. Co-fundou a TopMBA Coaching, onde atualmente trabalha como coach. Seu mantra? Aproveite a vida com uma mente aberta, um coração sincero e um espírito livre!

Alex Anton é MBA pela Harvard Business School e mudou radicalmente de carreira: de bioquímico a consultor de estratégia (McKinsey & Co.) a empreendedor. Já morou e trabalhou no Canadá, Alemanha, Suíça, Indonésia, Estados Unidos e China. É fundador da TopMBA Coaching – www.topmba.com.br - e entusiasta da meditação, fotografia e corrida. Suas ideias podem ser conferidas no blog transforME – www.transforme.is

 http://www.hbrbr.com.br