O eterno mito da rivalidade feminina no trabalho
24 de janeiro de 2020
Coaching&Carreiras

A mídia está cheia de artigos afirmando que a relação das mulheres, umas com as outras, é marcada por bullying, fofocas maldosas, falsidade e tentativas de sabotagem no trabalho. O problema dessas afirmações é que elas simplesmente não são verdadeiras. Em pesquisa realizada para o nosso livro It’s not you, it’s the workplace, não foi encontrada qualquer prova empírica que sustentasse essa ideia de que as mulheres são mais mesquinhas, antagônicas ou desleais no relacionamento com outras mulheres do que os homens, com outros homens. Na verdade, a pesquisa psicológica mais recente mostra que “o sexo de uma pessoa tem pouca ou nenhuma influência na sua personalidade e capacidade cognitiva ou de liderança”. Mas, se não existe comprovação empírica de que as mulheres sejam inerentemente hostis umas com as outras, por que essa ideia é tão prevalente?

Acreditamos que a resposta está na interpretação equivocada do motivo que, muitas vezes, leva as mulheres a ter relações conturbadas com outras mulheres. Ou seja, não é devido a características psicológicas especificamente femininas, mas sim à discriminação no ambiente profissional.

Ambientes sexistas

Um ambiente de trabalho é sexista quando liderado e dominado por homens e operado de acordo com normas, valores e expectativas masculinas. Em ambientes assim, dois poderosos – senão implícitos e inconscientes – tipos de discriminação podem resultar em relações antagônicas entre as mulheres: discriminação por afinidade e discriminação por gênero.

Discriminação por afinidade é a preferência natural e instintiva que as pessoas têm por se aproximar e dar apoio a alguém parecido com elas mesmas. Devido à discriminação por afinidade, gestores do sexo masculino normalmente não consideram mulheres como suas primeiras opções no momento de atribuir tarefas importantes, fazer indicações para equipes de maior relevância, ou convidar para suas redes de contatos profissionais. As mulheres só costumam ser escolhidas depois dos homens com os quais eles se sentem mais à vontade.

Discriminação por gênero é a premissa de que os homens são superiores às mulheres no que diz respeito a liderança, tarefas que envolvam alta pressão e negociações difíceis. Devido à discriminação por gênero, as mulheres são vistas como menos competentes, ambiciosas e competitivas do que os homens.

Discriminação por afinidade e discriminação por gênero costumam operar juntas ao para dificultar as relações profissionais entre mulheres, pois limitam o número de vagas de liderança forçando as pessoa que almejam essas posições a uma competição direta entre eles. As duas formas de discriminação acabam, também, pressionando as mulheres de forma significativa – e até, evidente – a adotar um estilo de gestão marcadamente masculino, a fim de se identificar com os homens do grupo e se distanciar, ou se diferenciar das outras mulheres. Essas dinâmicas promovem o antagonismo entre mulheres, o que costuma ser equivocadamente classificado como algo inerente à sua natureza, e não às circunstâncias do ambiente de trabalho.

Expectativas no Local de Trabalho

Mulheres (e homens) criam estereótipos de gênero sobre a forma como mulheres (e homens) devem se comportar. Por exemplo, as mulheres esperam que suas colegas do sexo feminino (mas não os colegas do sexo masculino) interessem-se por seus problemas pessoais, preocupem-se com seu bem-estar, apoiem seus anseios e estejam atentas e sensíveis às suas necessidades, desejos e dificuldades particulares. Em outras palavras, presumem que as outras mulheres sejam “mais compreensivas, mais cuidadosas, mais caridosas e mais indulgentes que os homens”. E, quando isso não ocorre, podem reagir com antagonismo.

No entanto, quando atingem status elevado, em carreiras com demandas exigentes, as mulheres (assim como os homens) são pressionadas a serem mais diretas, assertivas e objetivas, e a evitarem tratar as pessoas com base no seu gênero. Mulheres executivas, portanto, ficam divididas entre as expectativas de seu ambiente de trabalho e as expectativas das outras mulheres, sendo interpretadas como frias, egoístas, hostis e antagônicas – enquanto os homens com comportamento idêntico estariam apenas exercendo seu papel, segundo essa visão.

Sem dúvida, algumas mulheres são naturalmente desagradáveis, antipáticas e controversas. Mas não há evidências da existência de uma proporção maior de mulheres do que de homens com essas características. Certamente, não existe um número significativo de “mulheres malvadas” no ambiente profissional que justifique “colocar todas no mesmo saco.”

Mulheres e Homens Não São Diferentes

Como observamos no início deste artigo, há outro motivo para rejeitarmos a ideia caricata das mulheres como inerentemente hostis, umas com as outras: a ausência de qualquer diferença que não seja a biológica entre os sexos. As diferenças realmente existentes, como as de temperamento, capacidade e comportamento, são pequenas e variam muito mais de uma mulher para outra do que de mulheres (em geral) para homens (em geral).

A diferença de comportamento de mulheres e homens no ambiente profissional, quando observada, não se deve a características psicológicas, mas a práticas e procedimentos discriminatórios que resultam em experiências profissionais desiguais. Mulheres e homens comportam-se e interagem de maneiras realmente diferentes no trabalho, devido às tarefas que lhes são atribuídas, às condições apresentadas e às expectativas em relação ao seu desempenho.

A caricatura de mulheres como indivíduos traidores, hostis, que praticam bullying contra outras mulheres não tem nada a ver com sua real natureza psicológica, mas, sim, com os estereótipos e as discriminações que enfrentam no trabalho. Em vez de propagar a rivalidade feminina, vamos modificar o ambiente de trabalho para que as mulheres não estejam em constante desvantagem na busca pelo seu desenvolvimento profissional.


Andrea S. Kramer é sócia em um escritório internacional de advocacia, e, há mais de 30 anos, trabalha pela promoção da igualdade de gênero no ambiente profissional. É coautora, juntamente com seu marido, Alton B. Harris, de It’s not you, it’s the workplace: women’s conflict at work and the bias that built it (Nicholas Brealey/Hachette 2019) e Breaking through bias: communication techniques for women to succeed at work (Bibliomotion, maio 2016).


Alton B. Harris é advogado há mais de 30 anos, e trabalha pela promoção da igualdade de gênero no ambiente profissional. É coautor, juntamente com sua esposa, Andrea S. Kramer, de It’s Not You, It’s the Workplace: Women’s Conflict At Work and the Bias That Built It (Nicholas Brealey/Hachette 2019) e Breaking Through Bias: Communication Techniques for Women to Succeed at Work (Bibliomotion, maio 2016).

Fonte: HBR

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